Capítulo 2 - A traição

Rafael começou um relacionamento com Soraia logo nos primeiros meses que chegou na cidade, como novo delegado. Estudante dedicado, pouco tempo depois que saiu da faculdade já conseguiu passar em um concurso público, iniciando sua carreira de delegado de polícia em uma cidadezinha do interior, uma cidade que ficava em cima de uma colina, sendo que, mesmo sendo uma cidade não muito grande, cerca de 50 mil habitantes, passavam dois rios pela parte urbana da cidade: Rio Salsa e Rio Pardo. Nas margens do Rio Salsa ficava o centro da cidade, com pontes a cada quadra e passarelas para os pedestres. Do outro lado do Rio Pardo ficava a parte periférica da cidade, com casas construídas de forma mais precária e pessoas com menor poder aquisitivo. A distância entre os dois rios era de menos de 1Km.

Embora Rafael e Soraia namorassem já havia alguns meses, eles não se viam com frequência. Às vezes, quer pelo trabalho de Rafael, quer pela dedicação de Soraia nos seus empreendimentos, os dois ficavam mais de semana sem se verem.

Em um desses finais de semana que Soraia não se encontrou com Rafael, ele foi a uma festa na casa de um influente empresário da cidade, na qual conheceu uma moça, a qual ficou sabendo apenas o apelido. Não contou que era comprometido, sendo que a moça conseguiu sucesso nas suas investidas, conquistando uma carona até sua casa, com direito a algumas cenas de romance na porta da casa da moça, sendo interrompidos pela passagem de Soraia.

Foi bem no momento em que os dois entravam na casa da moça que Soraia passou por ali, voltando para casa depois de ir comprar algumas bebidas em um bar, para beber em casa. Reconheceu o carro de Rafael, mesmo olhando de longe. Aproximou mais o seu carro e viu Rafael abraçado com a moça na porta de casa.

Rafael percebeu a presença de sua namorada, ainda enquanto estava nos braços da desconhecida, mas nada pôde fazer porque sua namorada apenas passou de carro, olhando ele pelas costas, enquanto a outra o beijava.

Rafael percebeu que Soraia tinha visto a placa de seu carro, que tinha reconhecido o carro e a ele, mas não teve coragem de olhar para trás. Quando o carro de sua namorada virou a esquina Rafael, se despediu e foi embora, não atendendo às súplicas daquela moça em entrar e ficar mais com ela. Aliás, ela percebeu que, de um momento para o outro Rafael mudou totalmente, ficando tão triste que chegava segurar o choro. Sem entender o motivo ela se despediu, dizendo que talvez fosse melhor ficar para outro dia.

Rafael voltou para sua casa. Ele que sempre mandava mensagens, no dia seguinte e nos seguintes não conseguiu escrever nada para sua namorada, mas sempre que possível, tentava ficar próximo da casa dela, para tentar ver ou ouvir alguma coisa.

Três dias depois, Soraia ligou para Rafael:

__ Alô, amor, está vivo ainda? Por que não deu sinal de vida?

__ É, então. Pressões do trabalho. Correria. Diga, coração!

__ Então, vamos dar uma espairecida, sexta-feira? Assistir um filme, lanchonete?

__ Mas ainda é terça-feira. Por que você está marcando algo para sexta? É que a gente está já há mais de uma semana sem se ver. Você passou por mim lá no banco sexta-feira passada e acha que nem percebi, mas eu percebi. Você me olhou e nem falou um oi.

__ Não, não te vi não. Mas por que você não falou comigo?

__ Só se eu saísse correndo atrás. Você passou pela porta giratória, pegou a senha, parece que quando me viu, saiu correndo.

Soraia era muito econômica em demonstrações de afeto. Ela era carinhosa, mas muito mais nas palavras que nos gestos. Ela acreditava que seria muita coisa, ou muito complicado, ter que ir cumprimentar o seu namorado e, talvez, ter que dar um abraço ou um beijo, ou falar algumas poucas palavras. Estava com pressa e acreditava que esse minuto perdido seria tempo disperdiçado. Apenas pegou a senha do banco lotado, saiu para outro lugar e, quando retornou Rafael já tinha ido embora, porque ele seria atendido poucos minutos depois que Soraia passou por lá.

Talvez por causa disso que Rafael acabou caindo em tentação com aquela desconhecida no churrasco, no final de semana. Talvez, inclusive, o fato de Rafael ter percebido isso, ter percebido que Soraia acreditava ser muito trabalho ir ali, poucos metros, e falar com ele fosse o motivo pelo qual ele acreditava que precisava de um pouco de carinho, o qual não conseguiria de Soraia.

__ Não percebi que você estava lá não. É que o filme que vai estrear no sábado eu quero ver faz tempo. Daí a gente vai lá, assiste, come alguma coisa e relaxa.

Rafael percebeu contradições, porque os filmes costumavam ser lançados na quarta-feira e Soraia falou de sair na sexta. Ou seja, Soraia ficou um pouco nervosa, acabou trocando as palavras. Rafael pensou em corrigir o raciocínio de sua namorada, mas deixou para lá.

Rafael sabia que Soraia queria. Ele ouviu o eco dos seus pensamentos pretéritos na memória de Soraia. Ela queria uma despedida e terminar o namoro logo em seguida.

Muito embora Rafael não pudesse ouvir os pensamentos, ele conseguia ouvir aquilo que ele chamava de ecos dos pensamentos pretéritos na memória da pessoa. A lembrança que as pessoas têm dos próprios pensamentos.

Já, quanto ás distâncias, mesmo Rafael conseguindo ouvir as lembranças das pessoas que estavam apenas a menos de 50m de distância, conseguia ouvir, ainda que de forma menos clara, principalmente quando não envolvia memórias de imagens, mas apenas de palavras, pelo fio do telefone. Como a ligação foi de fixo para fixo, Rafael conseguia ouvir algumas memórias. Quando a ligação era por telefone celular, isso não era possível.

Rafael consentiu com o encontro, insistiu para os dois se verem antes, mas sem sucesso.

Rafael passou aquele dia à noite e na noite seguinte na frente da casa de Soraia e percebeu que ela estava em casa, sozinha e assistindo TV. Não justificando que ela não quisesse vê-lo. Sexta-feira eles se encontraram.

Ela foi com seu carro na casa de Rafael e foram para o Cinema no carro dela. Talvez ela não quisesse ir no carro de Rafael, porque foi naquele carro que ele deu carona para a menina havia alguns dias e isso a chateava muito.

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