Capítulo 5 - Vida que segue

Segunda-feira, quando chegou à Delegacia de Polícia na manhã seguinte, Rafael entrou na cantina e encontrou Paulo com o jornal na mão, em pé, perto da mesa, revesando com a outra mão entre uma xícara de café e uma torrada que ele mordia e deixava em um prato.

Paulo disse para Rafael:

__ E aí? Ficou sabendo quem morreu esta madrugada? Deu no jornal aqui.

__ É bandido ou gente de bem? Quem foi? Perguntou Rafael.

__ Na verdade, não sei. Vai chegar daqui a pouco para a gente resolver. Eles estava pichando o muro da casa do Moacir e alguém mandou tiro. Matou os três que estava lá. Eram dois amigos e a namorada de um deles. Explicou Paulo, ao que Rafael disse.

__ Que coisa triste. Assim que eu puder, vou conversar com o Moacir. Vai que ele ouviu ou viu alguma coisa. Rafael seguiu falando.

__ Você já sabe de alguma informação sobre carregamento de drogas passando por aqui? O pessoal da PRv já pegou um caminhão com drogas, mas não consegui falar com o motorista ainda. Ele está no xadrez? Quero falar com ele. Pode ser?

Rafael entrou na sua sala e o carcereiro, alguns minutos depois já estava lá com o motorista do caminhão que foi preso. Entrando na sala, Rafael já percebeu que ele era inocente. Rafael perguntou:

__ E aí vamos ver se você sai daqui agora. Você estava dirigindo o caminhão, mas quem mandou a carga? O acusado respondeu:

__ Não vou falar nada, não, senhor, vou esperar o advogado chegar. Eu não fiz nada de errado.

__ Eu sei que o caminhão era fechado, estava com um lacre na porta, que você chegou para trabalhar ontem e entrou no caminhão já carregado e você sabia o que estava carregando só porque leu a nota. Eu sei que você é inocente. Eu quero te mandar embora daqui o mais rápido possível. Disse Rafael, sendo que o acusado respondeu.

__ Eu não tenho mais nada a dizer. Eu só quero que o senhor diga isso quando meu advogado chegar. Fale isso na presença do juiz ou do promotor. Eu não faço o carregamento.

Rafael deu alguns telefonemas, e falou para o carcereiro colocar o Acusado na rua e respondeu ao acusado:

__ Eu nem sei por que razão te trouxeram aqui, mas eu quero que você diga para mim algumas coisas para ajudar a encontrar os responsáveis pelas drogas que encontraram no seu caminhão.

O motorista, no mesmo dia, foi solto da prisão e Rafael chamou os policiais para conversar informalmente.

__ Por que o motorista foi preso? Eu vi o depoimento de vocês e não vi nenhum motivo. Carga lacrada, motorista contratado pela empresa, não tem nenhum motivo. Os policiais responderam que encontraram drogas em uma carga e a ideia foi levar para a delegacia para prestar esclarecimentos.

__ O caminhão passou pela gente e o cachorro ficou louco. Ele ficou tão agitado que a gente rompeu o lacre e ele rasgou a caixa no dente. O cachorro agiu sozinho praticamente. E concluiu: Não algemamos, trouxemos para a delegacia.

Rafael, no mesmo dia, foi para a cidade de Cerro Azul, de onde o caminhão partiu, com o fim de conversar com os trabalhadores da empresa de transporte. Assim que chegou percebeu que a empresa pertencia a um deputado federal. Conversou brevemente com alguns carregadores, fez duas perguntas para o gerente. Retornou para Entre Rios, cidade de sua jurisdição.

__ Onde o senhor esteve o dia todo. Temos prisão em flagrante para ser lavrada, temos ofícios para serem mandados e o senhor sumiu. Disse o mesmo policial militar que no outro dia tinha prendido o caminhoneiro, aquele que já estava solto. O nome do policial era Felipe. Rafael respondeu:

__ Eu fiquei sabendo de onde aquele motorista estava vindo e fui lá. De um dos trabalhadores eu fiquei sabendo de onde veio a caixa com um X vermelho. Fui lá e falei com quem levou. Ele me falou de onde veio a caixa. Conversei com os envolvidos e descobri que a droga vem em todos os carregamentos da empresa, em caixas de 25Kg, quem vende é um tal de Loir, que recebe o valor via Criptomoeda, que é transferido por um traficante daqui da cidade. Basta pegar ele e a gente vai ver no telefone celular dele que ele fez transferências e conversou com o Loir confirmando o pagamento. Ah! Às vezes vem duas caixas.

__ Ótimo! Onde estão os depoimentos? Onde estão os documentos deles? Perguntou Felipe, ao que Rafael respondeu:

__ Foi tudo colaboração anônima, pessoas que aceitaram ajudar sem envolverem o nome delas na investigação. Mas se você quiser uma pista, o rapaz que pega a droga vai buscar ela todo dia às 13h na casa do Loir. Se você quiser investigar e fazer um flagrante é só estar lá às 13h. Na verdade o funcionário da empresa busca a caixa um pouco antes, porque às 13h ele chega na empresa com a caixa no carro, daí ele coloca no caminhão. Felipe questionou:

__ O Dr. sabe de tudo isso, todo mundo confessou envolvimento com os crimes e ninguém foi preso? Ninguém está sendo processado? O que está acontecendo? O que não está acontecendo? Qual a justificativa disso?

__ Não tem justificativa, Eu sempre trabalhei desse modo informal e as pessoas ajudam porque sabem que não vão ser presas. Muitos desses envolvidos não sabem nem que se trata de contrabando. Tem gente que acredita que simplesmente está fazendo um favor para alguém. Quem tem que investigar são os investigadores, eu estou apenas fornecendo um rumo para eles investigarem, mas se vocês da polícia quiserem um flagrante, eu mando o endereço, estejam lá 12h30min. Informou Rafael ao que Felipe respondeu:

__ Eu sei fazer o meu trabalho, não sou subordinado seu e pode deixar que eu vou fazer o trabalho que o Dr. deveria ter feito e não fez e lavrando tudo em termo, por escrito. E outra, como que o Dr. está investigando sem ordem judicial, sem inquérito policial, tudo de forma amadora, oral? É possível agir sem preciosismo, mas respeitando os procedimentos. O que o Dr. me falou parece conversa de vizinhas. Após essas palavras de Felipe, Rafael decidiu:

__ Está bem. Vou mandar o endereço para a Polícia de Cerro Azul, daí eles vão lá fazer o flagrante. Normal. Queria ajudar a polícia, mas se você não quiser ser ajudado, eu ajudo outros mais ajudáveis. Disse Rafael enquanto se retirava, entrando em sua sala para trabalhar.

Enquanto Rafael lavrava prisões em flagrante e redigia ofícios, Rafael conversava com a Polícia Militar da cidade de Cerro Azul, dizendo quem era, mas pedindo para que a denúncia fosse encarada como denúncia anônima, por motivos de facilitar os trâmites e desburocratizar a circulação de informações.

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