Capítulo 4 - O Término

 Chegando à casa de Rafael, Soraia pediu licença para entrar, ao que Rafael disse:

__ Era para você se sentir em casa aqui, há mêses, mas você é a gata mais arisca que eu conheci. Daí você só veio aqui hoje.

Evidente que Rafael não dizia isso para jogar na cara de Soraia alguma coisa, ou para tentar colocar a culpa do término do relacionamento nela. Rafael queria se justificar, pedir perdão. Tentar fazer sua culpa ser vista como menor, dadas às circunstâncias. Soraia sentou-se na poltrona de um lugar apenas, dando o recado que não queria Rafael ao seu lado. Soraia explicou o motivo da visita, sempre com um olhar evitando se cruzar com o olhar de Rafael e um sorriso de nervoso que a acompanhou desde o momento em que entrou na casa.

__ Parece que você já sabe o que eu tenho para dizer. Eu sempre gostei de falar com você porque você parece que sabe exatamente o que se passa na minha cabeça, como que se pudesse ler os meus pensamentos, sentir o que eu sinto. Eu sou grata por tudo o que a gente já viveu, mas não dá mais. Não foi ninguém que me contou e eu não contei para ninguém. Eu vi você se agarrando com a Vanessa na porta da casa dela. Você deu carona para ela, estacionou na frente da casa dela e ficou se agarrando com ela na frente da porta e sabe-se lá mais o que você fez depois que eu passei de carro. Rafael disse:

__ Então, Soraia. Eu só posso dizer que... Rafael foi interrompido, sem nenhuma tentativa dele de continuar falando, mas calou-se assim que Soraia começou a falar.

__ Não diga que não era você, não diga que não era o seu carro ali, não minta porque eu vi. Falei com o Adalberto e ele confirmou que você estava no churrasco na casa dele e a Vanessa estava lá. Rafael completou, ainda enquanto ela concluía:

__ Não ia dizer isso. Eu ia dizer que eu só sei que as pessoas chamam ela de Nezinha, não sabia até agora nem o nome dela. Eu poderia tentar me justificar, querer dizer o que me levou a isso, mas isso pareceria que eu estou tentando dizer que não tenho culpa. Tenho culpa. A culpa pelos meus atos foi minha. Não vou querer me justificar não. Só tenho que pedir desculpas para você. Errei. Nem sei se a Nezinha sabia quem eu era, se eu tinha ou não tinha namorada. Ela tinha bebido um pouco demais. Eu deixei ela na casa dela, porque ela estava meio bêbada e me agarrou. Eu deixei as coisas acontecerem, não falei em momento nenhum que eu tinha namorada, nem tentei evitar. Não dá para falar que uma mulher daquele tamanho iria agarrar e forçar alguma coisa com um homão do meu tamanho. Vanessa disse:

__ Mas você acha que você merece ser perdoado e voltar como que se nada tivesse acontecido? Será que depois de você trair minha confiança, eu que sempre te dei total liberdade de ir onde você quiser, com quem você quiser, sem pedir satisfação, com total liberdade. O que mais eu poderia ter feito e não fiz?

Rafael nesse instante pensava que era justamente esse o problema: o excesso de liberdade. Dez dias sem se verem, dependendo sempre dele, ligar, puxar assunto. O problema é que sempre ela marcava os encontros, como que se ela fosse a única responsável pela relação. Evidente que os lugares onde eles iam a as conversas que eles tinham eram sempre muito boas. Para ambas as partes, mas Rafael se sentia como uma garrafa de água que Soraia colocava na geladeira e quando dava sede, Soraia tirava ele da geladeira. Durante a relação, foram poucos encontros, menos de meia-dúzia de vezes que Rafael foi à casa de Soraia e Soraia foi à casa de Rafael apenas para terminar o namoro. Rafael apenas disse:

__ Foi um final de semana perfeito até o momento em que você sentou nessa poltrona. A gente se viu, eu fui na sua casa, você veio aqui. Gostaria que isso tivesse acontecido mais vezes durante esses meses. Pena que foram tão poucas vezes. Só tenho a agradecer a tudo e pedir desculpas. Desde o momento em que eu fiz aquela burrada, eu não dormia, não conseguia trabalhar direito. Agora que você está falando que sabe o que aconteceu, que está terminando, que não está triste, abalada, que você não está se sentindo culpada, eu me sinto aliviado. Aliviado porque os meus erros prejudicaram só a mim mesmo. Eu quero que você me perdoe nesse sentido. De não ter ressentimentos apesar de tudo o que eu fiz. Não que você faça de conta que não aconteceu nada. Não basta o perdão. A consequência dos atos acontecem mesmo que a gente seja perdoado, porque os atos aconteceram e eles têm consequências. Soraia respondeu:

__ Não terminamos da melhor forma, mas não vou julgar tudo o que aconteceu por causa de um fato. Sei lá se foi só um fato mesmo, mas não vou cair naquele clichê de, em um minuto estar trocando juras de amor e no minuto seguinte, dizer que odeia. Foi tudo bom, mas não tem como continuar. Obrigado por tudo e Tchau.

Soraia se levantou e saiu pela porta sem passar por Rafael porque a poltrona estava na mesma parede da porta da rua. A sala da casa foi o único cômodo que Soraia visitou da casa de Rafael e, mesmo assim, apenas no último dia do relacionamento e bem na ocasião em que terminaram o namoro.

Rafael estava sentado no sofá da parede adjacente e, enquanto Soraia falava, permanecia de cabeça baixa, com os cotovelos nos joelhos e as mãos sobre o rosto. Nem viu Soraia saindo pela porta, porque não teve coragem de levantar a cabeça e ver Soraia saindo.

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